Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? Amar e esquecer, amar é mal amar, amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? Amar o que o mar traz à praia, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante, e amar o inóspito, o cru, um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este é o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais a paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Gostei imenso deste texto. Expressa o amor em poucas palavras, exactamente como ele é. Tanta palavra mas não chega para se dizer o que ele realmente é, na minha opinião acho que escreves bem :$ gostei imenso mesmo do texto. Mas se prestares atenção a música que te mandei ouvirás grande parte do que disseste aqui.
ResponderEliminarQuerida aluna
ResponderEliminarLi com muito interesse o seu texto sobre o amor que nunca é "distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada [se é uma doação que se dá sem se pedir nada em troca]a uma completa ingratidão [logo não há ingratidão]"...
"Concha vazia"... não acredito nesta misantropia numa criatura tão sensível como a Sofia. Bem sei que a poesia acontece mais vezes nos estados de melancolia, todavia TEMOS DE NOS ESFORÇAR POR EXALTAR A ALEGRIA E O ESTADO DE GRAÇA...
Parabéns, bonita escrita Marília
Cara aluna
ResponderEliminarSe tem o contacto da sua colega Alexandra, avise-a que preciso "falar" urgentemente com ela.
bem-haja prof Marília